C U R S O S

                  

 


 

Mutação dos Média (2016/17)
1.º  e 2º Semestres
Sala T6/T7

Programa
Avaliação
Textos

contacto: jbmaulas@gmail.com     

PROGRAMA

De um ponto de vista "especulativo" a cultura resulta de uma divisão originária relativamente à Physis ("natureza), criando-se o espaço da história e um trabalho peculiar sobre os corpos e a Terra.  De facto, Todo o trabalho material corresponde a passagens entre a natureza e a história, trabalho esse que foi largamente inconsciente. Com a modernidade emerge a consciência de uma mediatização generalizada, com o consequente sublinhar das passagens, transições, transposições, etc; mas também uma dimensão aquivista e museal, em que tudo é registável e combinável.  Característica essencial da modernidade é a da libertação da técnica relativamente ás estrutura simbólicas que a enquadravam. Isso implicou uma rearticulação do “natural” e do “artificial”. É o caso, por exemplo, da linguagem. Se a oralidade parece estar próxima da natureza, modulando sons que, em si mesmos, são puro «ruído», enquanto sistema de articulação é altamente artificial, envolvendo  o som pelas codificações da língua, indissociáveeis da invenção da escrita e das gramáticas. Da invenção da escrita à tipografia e, desta, à máquina de escrever e ao teclado de computador, vai todo um percurso que já estava implícito na própria oralidade, ou que esta possibilitava. A crescente requisição da experiência pela técnica – característica primordial da modernidade -  revela-se, entre outros traços, pela maneira como os objectos técnicos se vão disseminando pela experiência, partindo dos instrumentos e das máquinas até a associações mais abstractas e informacionais, que hoje preponderam.

 

Toda a cultura se caracterize pela vontade de controlar as passagens entre o possível e o efectivo, remetendo para uma razão medial que se entretece no curso da história. A explosão dos meios e das máquinas de todo o género, das gigantescas às nano-máquinas, a aceleração  intensa e a criação do ciberspaço, complicam surpreendetemente a questão dos média. Parece haver contradição enter a imediaticidade e o directo e a profusãoo de máquinas e dispositivos. A crise da própria noção de medium faz da questão da "mutação" uma categoria essencial. Sendo um fenómeno especificamente moderno, que emerge com as transformações provocadas pela matematização e codificação do mundo, a partir do século XIX, meios como a fotografia o cinema ou o gramofone operaram uma nova mutação cujas consequências ainda nos afectam. O efeito essencial desta mutação foi, como dectecta Rilke, uma fragmentação das percepções que acompanha a diversificação dos media e a sua dispersão conflitual, bem patente nos grandes media de massa que caracterizaram boa parte do século XX.

 

Uma nova «mutação» está em curso neste momento terminal da modernidade. Referimo-nos à maneira como os computadores e as ligações em rede, por fibra óptica ou wireless, estão a operar um «convergência» ou composição dos media, afectando a totalidade da experiência, recuperando os antigos media para o ciberespaço, ao mesmo tempo que, quase instantaneamente, «arquivam» e reciclam o real. As tecnologias transductias (Simondon) ou as chamadas teletecnologias (Stiegler, Derrida) são hoje dominantes, embora se detecte a sua presença nos sistemas postais antigos, no telégrafo, no telefone ou na televisão, cuja arqueologia está longe de ser clara.

 

A generalização dos meios e procedimentos transdutivos revelam que os novos média são processadores do real e alimentam a vontade de imediaticidade ou de ligação directa, que anteriormente apenas podia ser realizada de maneira mítica e mística. Tal mística tinha um fundamento "político", o de garantir o controle das relações, entre senhor e servo, criador e criatura, cidadão e Estado, etc. A própria política sai transformada pelas novas possibilidades tecnológicas.

 

Em suma, a mutação dos média um fenómeno complexo, sendo ao mesmo tempo influenciada pelas condições sociais, mas também pela evolução da técnica, bem como pela paisagem dinâmica  que determina o «aspecto« do real.

 

O programa procurará dar conta deste complexo de relações, desenvolvendo-se nos seguintes momentos:

 

1) Breve discussão sobre a noção de «mutação dos média», dando especial ênfase à maneira como ficou registada na cultura e às afecções que suscita, nomeadamente ao carácter «inquietante» (Uncanny/Unheimlich) que caracteriza o novo e a sua reinscrição do passado no presente(Freud).

 

2) Análise da centralidade da técnica na origem da mutação dos média, a qual constitui actualmente um operador essencial de mediação. Estudaremos muito particularmente as perspectivas de Georges Simondon e de Martin Heidegger, procurando mostrar que através da noção de dispositivo (proposta por Deleuze, Agamben) que existe uma diferença essencial entre media e objectos técnicos.

 

«3) Genealogia da abordagens dos media de Walter Benjamin, ainda altamente influente, de modo a apreender a constelação global – o dispositivo poético, económico e político - em que os média se inscrevem e, simultaneamente, alteram.

 

4) Breve panorâmica de algumas das principais teorias contemporâneas sobre a mutação dos média, dedicando especial atenção a Friedrich Kittler, Rosalind Krauss, David Bolter, Lev Manovitch, Jussi pParikka e Vilém Flusser.

 

5) Argumentaremos, em conclusão, acerca da necessidade de elaborar os fundamentos de uma «crítica da economia geral», de que os media são um dos principais operadores.


Programa

 

 1.  Introdução: Sobre a noção de «mutação» dos média.

 

2.  Técnica, média e dispositivos

 

 3.  A Constelação dos media contemporâneos

 

 4.   Conclusão: A necessidade de uma crítica da «economia geral» dos média

 

 

 

Avaliação

 

     Os textos abaixo discriminados são de leitura obrigatória e servirão de base para a avaliação na disciplina. Pontualmente serão fornecidos textos seleccionados para apoio a pontos específicos do argumento do curso.

 

     Cada um dos textos apoia um ponto da matéria a ser debatido na turma, e deverá ser previamente lido pelos participantes no curso.

 

      A avaliação contínua consiste num teste incidindo sobre a totalidade da matéria e na discussão e breve recensão de um dos textos obrigatórios nos debates em aula, o que maximizará a avaliação contínua (ponderação 80% + 20%).

 

      A avaliação pontual consiste num teste incidindo sobre toda a matéria efectivamente dada (ponderação 100%).

 


 

 B) Textos Obrigatórios[1]

    

 

A. Introdução: As afecções da mudança e da transição maquínica

a)  Jussi Parikka: “Cartographies of the Old and the New” in What is Media Archeology, Londres, Polity Press, 2012 (download)

b) Tom Gunning: “Re-newing old technologies: Astonishment, Seconde nature, and the Uncanny in technology from the previous Turn-of-the-Century» in Thorburn, Rethinking Media Change: The Aesthetics of Transition, Mass., MIT Press. (download)

b) Sigmund Freud: «Uncanny» (download

c) Caso 1
Nadar, «Balzac and the Daguerreotype”  in My Life as a Photographer (1854)(download)

d) Caso 2
Rilke, «Primal Sound» (1919)
(download)

 

TEXTO DE APOIO:

G. Thorburn: Introduction to Rethinking Media Change: The Aesthetics of Transition,     Mass., MIT Press (download)

John Onians: «Short History of Amazement» (Londres, Phaidon, 1994) (download)

Lisa Gitelman,  Introduction: Media as Historical Subjects  in Always Already New, Media, History, and the Data of Culture, MIT Press, Cambridge, Massachusetts, 2006.(download)

 

 

B.  A técnica como operador da mutação mediática

            

a)   Caso 3 
Victor Hugo, «Ceci tuera cela» in Notre-Dame de Paris. (download) 


b)   Técnica I:
Martin Heidegger: «A questão da técnica» in Essais et Conférences, Paris, Gallimard
 (download) 

c) Técnica II
Gilbert Simondon, Technical Mentality in De Boever at alii (eds), Gilbert Simondon: Being and Technology, Edinburgh UP, 2012. (download)

d) Dispositivo:
Giorgio Agamben: «What is an the Apparatus» in WHAT IS ANAPPARATUS? and Other Essays (2009).(download)

 

TEXTOS DE APOIO:

Adrian McKenzie: Introduction to Transductions: Bodies and Machines at Speed (Continuum, 2002) (download)

 Gilbert Simondon: Introduction to On the Mode of Existence of Technical Objects (1958) (download)

Gilbert Simondon: «Sobre a tecno-estética: Carta a Jacques Derrida»(download)

Gilles Deleuze: «What is a Dispositif» (download)

 Muriel Combes:  “The Transindividual Relation” in Gilbert Simondon and the philosophy of the transindividual, Mass., MIT Press, 2013. (download)

C.  A Constelação dos media contemporâneos
               

a)     Caso 4:
Paul Valéry, «La conquête de l’ubquité» (1928)(download)

b) Constelação
W. Benjamin: «A obra de arte na época da sua reprodutibilidade   técnica»
(download )


c)     Mobilização:
Peter Sloterdijk, «Mobilization of the Planet from the Spirit of Self-Intensification» (download)

d)    Arquivo
Wolfgang Ernst: “The Archive as Metaphor - From Archival Space to Archival Time” in Open 2004/Nr. 7/(No)Memory (download)

e) Redes
Alexander Galloway, "Networks" in Mitchell & Hansen (ends), Critical terms for Media Studies, University of Chicago Press, 2010. (download)

f) Algoritmos
Tarleton Gillespie, “The Relevance of Algorithms” in Media technologies: Essays on Communication, materiality and Society, Mass. MIT Press, 2015. (download)

            

       

 TEXTOS DE APOIO:

Jay David Bolter: «The double logic of remediation» in Remediation,Mass., IT Press. (download)

Friedrich Kittler: «Preface and Introduction to Gramophon, Typewriter, Film» (Internet)

Friedrich Kittler: «The world of the symbolic - A world of the machine» in Letrature, Media, Information Systems, G+B arts, Amesterdam, 1997. (download)

Lev Manovitch: «New Media from Borges to HTML» (download)

Jussi Parikka: «Contagion and Repetition: On the Viral Logic of Network Culture» (Ephemera, 2007) (download)

Bernhard Siegert: “An epoch of the postal system» in Relays, Stanford University Press, 1999. (download)

Geoffrey Winthrop-Young and Nicholas Gane, «Friedrich Kittler, An Introduction» (download)


 

 

 

 

 

 

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[1] - Os textos existentes em português deverão ser adquiridos pelos estudantes, os outros serão fornecidos pelo docente em fomato digital.

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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt