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three lions
                     


 

A Imagem de Amália (1999)
 

Não sei se podemos falar de «estranha forma de vida», pois é na vida que está toda a estranheza. Somos mais vividos do que vivemos, por uma vida que irrompe por todo o lado, tenaz, tudo dobrando à sua passagem.  Quantas vezes em miúdo me espantaram as ervas que nasciam nas juntas das pedras, ou as raízes que dobravam o alcatrão das estradas. Como uma onda de água a vida passa por cima de tudo, alisando, destruindo as formas. Ainda mais estranho é que a vida entre numa forma, numa imagem.  Está aí o começo do «humano». A imagem é o primeiro momento em que a vida se divide, dividindo essa vaga de fundo que tudo avassala. Disse Nietzsche que onde houvesse uma pedra havia uma imagem. É que a opacidade das «coisas» é iluminada por essa divisão que extrai imagens leves da «densidade» da matéria. Primeiramente, imagens para ninguém, pré-históricas, depois de criadas nas fábricas de Lascaux,  tornam-se num problema, mas também na solução. É com a imagem que, secretamente, se origina a história, ao introduzir-se no estado de coisas, que se repetiria indefinidamente no esforço inglório contra a entropia universal, se não fosse propulsado por ela - pela «imagem».

Amália morreu. Como se diz pudicamente, «deixou-nos»,  mas já nos tinha deixado há muito. Justamente porque se tinha tornado numa imagem - alguns falam de «mito» -, habitante do mundo das «imagens», que não o nosso, cada vez mais iluminado pela electricidade, que dissipou todas as sombras, de onde a imagem emergiu. O fim das sombras que alimentava a esperança iluminista, acabou por ser realizado pelas máquinas de luz, a fotografia, por exemplo. Os corpos históricos, mescla enigmática de imagem e matéria, cindiram-se com a fotografia, em corpos pesados e imagens leves. Corpos solitários e predadores, onde se ocultam os Hannibal actuais, e imagens que circulam a velocidade estonteante, saturando todo o espaço - as ruas das cidades com os seus placares e carros saídos das pranchas de design digital, as imagens televisivas que circulam ao acaso, fragmentos de objectos ou de corpos que já não existem nem nunca existiram, orbitando a Terra, mas também o espaço «interior» dos nossos sonhos ou dos nossos monólogos, é atravessado por elas. Acima de tudo, quando já nem as vemos. Como diz Steven Shaviro: «o mundo recaiu na sua própria imagem tremeluzente, e já nada é verdadeiro ou falso, e já é muito tarde, e a TV esteve ligada horas a fio. Mas que é que isso tem? As imagens proliferam sem fim no vazio, a despeito de estar alguém a olhá-las ou não. Tu não vês programas de TV, olhas apenas para a TV. Baixa o volume, e vai deitar-te, de manhã estará lá outra imagem qualquer». 

O mundo, imensa cornucópia, de onde saem em abundância esses seres estranho e descontrolados que são as imagens. Depois de milénios em que as teologias nos denunciavam a falta de algo essencial, mais profundo ou ainda oculto, verifica-se o contrário: o mundo está cada vez mais repleto, mais cheio. Marx deu-se conta dessa imensa acumulação, tendo a ilusão de que a história a controlaria. A razão desta cornucópia de imagens e de coisas à imagem das imagens tem a ver com a crise do sistema antigo que rarificava as imagens e que foi destruído pelos modernos. Tempos de imagens fortes, como a de Deus, que impedia a multiplicação das imagens. Mesmo a Razão, com a divisão entre «real» e «irreal» ainda cumpria essa função, mas era no «irreal» da estética que incubava a instabilização de toda esta estrutura. A cornucópia actual das imagens é o resultado da fusão da «imaginação» e da «técnica».

De nada serve lamentar a situação. Não é possível ir além ou atrás, já que tudo se passa nessa fina película de imagens tecnicamente sustentadas que recobrem o mundo. A fazer algo será com a própria imagem. Ora, Amália tornou-se numa imagem, que conseguiu não ser absorvida pelo nomadismo das imagens, pela sua errância. Há muitas maneiras de isso ocorrer, mas nem todas se equivalem. Se todas as imagens atraem, se podem tornar-se magnéticas, isso pode ser um simples efeito técnico, ou não. Para além das «imagens» de Marilyn, James Dean ou Elvis, que parecem magnificar um corpo bem mais fraco que elas, às imagens de Wahrol, permanentemente marcadas pelos acidentes da vida que não apenas dos carros, pelas contingências da pele, como as borbulhas, que têm permanentemente de ser disfarçadas, pintadas, etc., terá de haver ainda lugar para uma imagem que penetra na «história», fazendo tudo circular em seu torno, nem que seja por um momento ínfimo, mas fundamental. A morte pode revelá-lo.

Amália, que nascera antes da televisão, que começara a sua carreira nas ruas, que deve tudo ao gramofone, tornara-se numa imagem antes de morrer. Mas há imagens e imagens. Qual a diferença com Amália? Quando penso nisso vem-me à memória uma das obras de Leonel Moura, baseada numa fotografia de Amália. Extraída do corpo de Amália, não é uma imagem qualquer, dada a força inusitada. Alguém não falhou a ocasião, que falha a quase todos nós, se é verdade, como pretendia Wahrol, que todas as «pessoas tem um momento em que são belas». Um breve momento, que depois os retratos procuram o resto do tempo captar, numa quase impossibilidade. Os retratos de Cartier-Bresson são bom exemplo disso. Aqueles grandes homens, já envelhecidos, são um vestígio do momento que passou, de que ficou apenas um brilho do olhar, um desprezo secreto.

Neste caso, essa fotografia é a imagem da «imagem de Amália», revelando algo da sua força inusitada. Como sempre sucede quando uma imagem ganha força, e tem mais vida que o corpo de onde é retirada, alcança uma capacidade de «possessão», uma natureza fantasmática. Torna-se, então, diz-se, «eterna».  Não por ter sido sinal de algo que sucedeu uma vez, que se torna eterno por ser fatal. A fotografia de Leonel Moura da «imagem de Amália», que nenhuma máquina pode captar, porque só na história ela é imagem, indicia uma das razões da sua força: Está em causa a imensidade de metamorfose que toda a imagem forte pode sofrer e, acima de tudo, faz sofrer.

      Como conjurar os poderes da imagem de Amália? Os perigos que toda a imagem repentinamente à solta - não no espaço eléctrico, mas na história -,  não deixa de originar? Deixá-la vaguear no coração do povo que a amava parece ser demasiado perigoso. A melhor maneira é, repetindo-se assim o gesto imemorial de todo o poder, torná-la em pedra, monumentalizá-la. Envolvê-la em pedra, torna-la pedra, petrificá-la. Tarefa impossível, no entanto. Não basta a entrada dos  restos mortais de Amália nos Jerónimos para «dominar» o que a sua imagem tem de inquietante.

Estou certo que a petrificação da imagem de Amália acaba por ser perigosa, até para as próprias pedras. Recorde-se a lição das Bacantes de Eurípedes que ensina que, quando o dionisíaco impera, até os «frisos de  mármore», se liquefazem, como se ganhassem vida. A voz de Amália, que é matéria da sua «imagem», faz estremecer as velhas fundações do monumento em que o Estado procura esconjurar a sua imagem, usando-a para os seus fins. Fins bem intencionados? Porque não? E que importa isso, agora, se continuamos a ouvir a sua voz, que escapa à pedra milenar? Como diz Lezama é no «cântico da imagem»  que o histórico se «desvela», fundando-se no que está à espera, desde semrpe.

O que está à espera na imagem de Amalia que ecoa, silenciosamente, mas que cada um de nós não pode deixar de ouvir, é obrigadoa  ouvir? Não é o fado, como sofrimento ou desespero, nem como melancolia. Nem isso, nem a sua replicação estética pela «poesia da saudade». Nessa imagem ecoa a voz de uma alegria toda por vir. O seu fado é o de anunciar o fim da tristeza. Mas não é, também, a alegria de alguns e a tristeza dos mais.

Está em causa uma voz que vem do fundo dos tempos, a voz dos humanos, que não fala nem grego, nem latim, nem inglês nem português. Absolutamente singular e por isso mesmo universal. Como me surpreendia em rapaz verificar que a Amália era amada pelos japoneses, que justamente não podiam entendê-la, mas apenas ouvi-la. Um fio de voz que cerze o humano no esfarrapamento das diferenças. Nada de hibridismos, nem de mesclas, mas sim: pureza absoluta da voz, rectilinidade do fio de voz. Depois que venham as explicações, as semânticas e os icônes. Sempre demasiado tarde.

Eis o que ficou de Amália: uma imagem do comum, do começo dos tempos em que vigorava o Comum, que continua a iluminar a história. Que me esclarece uma frase de Lezama Lima, que sempre julguei enigmática: « a imagem, errante como um pirilampo, apoia-se numa substantividade poética, no campo germinativo da história, para engendrar a imagem que o tempo necessita para formar essas imensas massas de corais, de onde uma poesia sem poeta penetra no mistério do unânime ».


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt