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three lions
                     


 

Benjamin, no começo
 

 

          O peculiar ritual de comemorar nascimentos e mortes tem mais sentido quando sobre o nascimento. Boa parte da nossa tradição considera que é a morte que dá sentido à vida, sendo preciso esperar por esse último momento para se ter a imagem completa do que foi o homem. 

No caso de Walter Benjamin, muitos gostariam de encontrar o sentido da sua vida na sua morte dramática, enigmática, em Port Bou. Outros, nas peripécias da sua vida, seja nas suas paixões quase sempre mal sucedidas, seja nas suas idiossincrasias de coleccionador, ou então nos difíceis equilibrismos que o fizeram andar do marxismo para o messianismo judaico, em ida e volta, sem solução aparente. Ora, nada disso pode interessar alguém, a não ser os especialistas dos estudos de Benjamin, ou ao próprio Benjamin, que se escrevia abundantemente.  Aos que vêm depois, como dizia Pessoa, apenas nos cabe o dia do nascimento e o da morte. Também a memória, dir-se-á.

Tal memória é o mais difícil. A doença moderna é a mania da interpretação e esta embate irremediavelmente contra a obra de um autor que elogiava Kafka por "levantar barreiras contra a interpretação dos seus próprios textos". Embora seja possível fazer uma biografia de Benjamin, apenas o será por quem se der ao trabalho de a fazer contra este interditar da interpretação, que tem motivos éticos e políticos profundos. Que se rememore o 15 de Julho de 1892, em que ele nasceu e milhares de outros com ele, por todo o lado, é porque nessa data teve lugar um acontecimento inaudito, talvez por demasiado conhecido.

Que esse acontecimento esteja vivo no espírito de um português, cem anos depois, pro insignifcanet qeu seja, revela algo de decisivo. O que é assim decisivo? Hannah Arendt, que conheceu pessoalmente Benjamin, parece ter uma resposta: "o curso de vida de um homem na sua corrida para a morte levaria inevitavelmente todo o humano para a ruína e a destruição se não existisse a faculdade de interrompê-lo e de começar qualquer coisa de novo, faculdade essa que está ínsita na acção como uma sempre-presente lembrança de que os homens, embora tenham de morrer, não nasceram para morrer mas para começar". Benjamin é igual a todos nós, que também somos sempre "acabados de chegar" e "começadores", com uma diferença essencial: ele cumpriu a promessa de começar com que todos chegamos a este mundo.

Por isso, o que nos chega à memória é a maneira como esse começo se plasmou em figuras de tal modo próprias que, quando as pressentimos, se alguma vez tivermos lido Benjamin, de imediato reconhecemos a sua maneira e o seu estilo, a diferença que introduziu nas nossas coisas. O que nos deixa numa situação bastante solitária, pois, para além de confirmar a quem não o leu que vale a pena fazê-lo, que se pode dizer que não seja esse reconhecimento? Talvez apenas se possa referir aquilo que dele fizemos nosso. Então cada um terá o seu Benjamin portátil, mas essa portabilidade exige-nos leveza de gestos no trato com a sua escrita.

Benjamin, falando de um alemão notável no seu livro Homens Alemães, diz que ele era "vulcão e granito". Ficar só pela escrita é só ver o granito, ficar apenas pelo vulcão é ficar enfeitiçado pelo mistério da vida. Respeitar os dois ao mesmo tempo é poder compreender Benjamin. O meu Benjamin portátil são três ou quatro temas que voltam incessantemente, como uma música que, de tão repetida, mal reconhecemos. Falarei apenas de um deles, a sua visão da história.

Para Benjamin, a história foi sempre a história dos vencedores:  "O dom de atiçar no passado a chama da esperança não cabe senão ao historiógrafo perfeitamente convencido que, diante do inimigo, se ele vence, mesmo os mortos não estarão em segurança. E esse inimigo não tem feito mais do que vencer". Nunca li esta frase, e outras semelhantes, abaixando-a à visão grosseira de que os vencedores são facilmente reconhecíveis. Se assim fosse, apenas os vivos estariam em perigo. Ora, diz-nos Benjamin que os mortos também não estão ao abrigo. O que vence nesse vencer são certas formas sobre outras possíveis. Num dado momento, melhores ou diferentes figuras da história foram vencidas por outras. O que talvez dê sentido a esta frase: "a catástrofe: ter falhado a ocasião". Mas isso não basta para considerar essas formas violentas ou imorais, pois é a própria lógica do vencer que tem de ser abandonada. O imperativo benjaminiano de  "dinamitar a 'continuidade' coisificada da 'história' "  é um momento provisório desse abandono da lógica negativa do vencer. Trata-se ainda de fazer reviver o momento em que o que venceu podia ter perdido. Que isso não é suficiente mostra-o o seguinte paradoxo: se outra forma tivesse vencido logo faria parte de uma história dos vencedores. Daí que seja preciso, para Benjamin, fazer saltar toda a história:  "Que 'as coisas continuem como antes': eis a catástrofe".  Aparentemente é algo demasiado radical, ou negativo, ou que anteciparia as ilusões dos tristes Fukyamas sobre o "fim da história". Mas não é nada disso. Com o retorno do vencido, em que acabaria o próprio vencer, teríamos uma história que já não é tal, a não ser na forma como "a verdade se carrega de tempo até explodir. Esta explosão  coincide com o nascimento do verdadeiro tempo histórico". Esta história que já não é a daquilo que vence é um nascimento sempre em acto, onde o nascido não sufoca o que deve nascer: os novos começos.

Neste sentido, a história de Benjamin quase não se distingue da história que fez de nós o que somos, a não ser por uma mudança quase imperceptível. É que sendo imperceptível tem de ter força de ser. Se o que não é também nunca será, cada novo começo deve já ter ocorrido.  O que diferencia que todos nasçam mas só alguns comecem é um «quase nada» (Feijó), bem próximo do zero, que ganha peso com o amor que alimenta todas as comemorações, mesmo aquelas de que o comemorado se escapuliria se pudesse. (Para o Martinho)


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt