e n s a i o s
three lions
                     


 

Carta os que estão a chegar…(2007)
 

Isto começa a ficar solitário.

Há umas boas centenas de anos ou mais, um velho grego andou à procura de um homem de lanterna na mão, sem ter encontrado nenhum. À luz do dia juntou a da lanterna… e nada. Conta-se que terá vindo depois um homem, mas nem ele acreditava que o era. Preferia ser filho de Deus … e lá se escapuliu. Como censurá-lo? Ter a forma de homem não bastava. É que monstros de todo o género têm especial predilecção pela forma do homem. Apesar de tudo eram mais confiáveis de farda, essa pele pronta-a-vestir. O pior é que tiradas as fardas pouco ou nada está dentro, sobram uns manequins rígidos e a desolada trouxa de roupa no chão. Com a moda actual, as fardas variaram tanto que se disfarçam de não-fardas.

Dizia-te que é preciso procurar companhia, mas não como aquele herói de Rosny-Aîné que descobriu depois de infindáveis buscas que era o último homem da Terra, deitando-se na areia do deserto para ser absorvida pela nova vida ferromagnética. Na vida que tudo avassala o homem é um ínfimo milagre. Com Targ aprendi cedo que se deve saber quando parar, e ainda que só é homem aquele que se dispõe a procurar.

Pode-se sempre arranjar um animal. Gatos e cães habitam as nossas casas desde tempos imemoriais, mistos de fera e de adestramento. Mas também os animais se tornaram raros. Agora coleccionam-se coisas como peixes e lagartos, jacarés e mesmo vírus. Têm a traço comum de serem absolutamente indiferentes, que não devolverem o olhar. Atitude sábia a de escolher um destes bichos, pois como disse Platão na pupila está um espelho. E quem quer passar pela provação de ter de fugir aterrado desse pequeníssimo espelho redondo que devolve um rosto absurdo, ansioso, ou vazio?

Até as máquinas estão a desaparecer. E como elas eram confiáveis, sempre próximas, trabalhando à medida do nosso desejo. No século XIX, Marx descobriu uma inimizade com elas que era nova, como se elas se estivessem a revoltar. Mais certa é a atitude de Clarice Lispector que lhes fez um dos últimos elogios, agradecendo à sua máquina de escrever por «correr bem e correr suavemente»: «O ruído baixo do teclado acompanha directamente a solidão de quem escreve». Caso se revoltassem teriam justificação, dado o papel de escravos que lhes está destinado...

Mas também elas estão a desaparecer. Cada vez mais miniaturizadas, escondidas em falsas paredes ou falsos armários. O fax ficou reduzido a um ícone no computador, o telefone a uns quadrados no touch screen, como desapareceram já há muito as velhas máquinas de fotocópias, enormes, que deixava nas nossas mãos um trémulo negativo, onde algo se lia em letras fantasmais. Lembro-me que os negativos tinham de ser entregues com as fotocópias. Quando chegou o 25 de Abril já essas fotocopiadoras tinham passado a história.

As poucas máquinas que sobrevivem como as enormes escavadoras têm de ficar longe das cidades e ocultas. Quando por acaso nos deparamos com elas, como não sentir que são como os dinossáurios actuais, os mamutes do fim dos tempos? E quando nos filmes vemos um cemitério de automóveis, empilhados e esventrados, com fios a tremer ao vento ou caídos como limos nas águas do mar, como não lembrar aqueles cemitérios de elefantes que na nossa meninice nos fazia sonhar, sabendo que os elefantes se ocultavam para morrer sozinhos?

Por mim resisto. É certo que o «meu» computador já foi muitos outros, uma verdadeira selva de heterónimos, um drama em máquinas, como vagamente disse um literato. Mesmo assim nunca desapareceram ou nem os mandei para o lixo. Como animais verdadeiramente estimados dei-os ao cuidado de amigos, procurei-lhes casa, se calhar amor.

Às vezes quando chego com um pequeno presente, mais um software, um scanner, uma pen drive, sabe-se lá que mais – são sempre mais pequenos e mais potentes – sinto o meu computador cada vez mais distante, como que destinado a desaparecer, sem que eu possa fazer nada. 

Certo é de que não andarei de lanterna à procura da última máquina, nem do último animal. E sobre o último homem estamos falados. 

Diógenes só poderia ter reconhecido outros homens se estes se tivessem lembrado de trazer lanterna também. … Se estivessem combinados. Só que cada um é acompanhado de objectos sempre outros - para um a cruz, para outro a espada, outro ainda, o papel ou o pincel. Se calhar o grego coincidiu com outros, sem os ter reconhecido. Ou talvez seja errado procurar, sinal de impaciência e de arrogância.  

Afinal ainda nascem crianças, esse misto de animal, máquina e homem. São elas o que esperamos desde sempre, para que continuem … a procurar.

Lisboa, 30 de Março de 2007

In Jornal de Letras, Abril de 2007


 
 
 

 
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