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three lions
                     


 

A comunicação interpelada pela técnica (2001)
 

            A experiência historicamente construída está a sofrer um processo de transformação, cujo impacto sobre o futuro próximo não oferece dúvidas. Se o destino final é incerto, é seguro que estamos em movimento. Alguns diriam que estamos a ser mobilizados. A razão essencial tem a ver com a repentina aceleração da experiência por efeito das novas tecnologias da informação, estando todas as máquinas e a própria vida a ser integrada nessa «máquina universal» que é o computador.

 Sendo o diagnóstico bem compartilhado - as tecnologias actuais são o novum com que todos temos de nos defrontar -, já o seu significado e os seus efeitos são menos evidentes. Na verdade, muito está em causa na crescente digitalização da experiência, na mediação da cultura por máquinas da informação e nos seus efeitos relativamente ao agir humano. No fundo responder à pergunta humana por excelência do «Que fazer?» depende estreitamente da compreensão dos novos acontecimentos e da determinação das tendências que não deixarão de marcar o futuro da cultura.

            A comunicação desempenha neste processo um papel primordial. É, ao mesmo tempo, fonte do problema e contributo para «solucioná-lo». Num momento em que a experiência milenar de absoluto centramento nas «identidades» está  a entrar em crise, em que tanto sujeitos, quanto objectos e instituições estão a ser fracturados, a vocação comunicacional para pensar relacionalmente afigura-se decisiva.

Uma coisa parece evidente, as categorias tradicionais, mesmo as palavras tradicionais com que falávamos da cultura parecem estar a perder significado. Isto é bem pressentido por Paul Auster, um dos romancistas americanos mais inovadores,  que afirma na sua  A Trilogia de Nova Iorque (1985):  «O caso é que as nossas palavras já não correspondem ao que se passa no mundo. Quando as coisas faziam parte de um todo, sentíamo-nos confiantes de que as nossas palavras podiam exprimir essas coisas. Mas, pouco a pouco, essas coisas fragmentaram-se, espalharam-se, caíram num caos. E, contudo, as palavras permaneceram as mesmas. Não se adaptaram à nova realidade»  (Lisboa, Difusão Cultural,1990,  p. 95). O diagnóstico de Auster, afinal amplamente compartilhado, é claro: as coisas mudaram e não dispomos das categorias para falar dessa mudança. As teorias tradicionais estão a perder muito da sua capacidade explicativa, e não é solução precipitar-se no «abismo» pós-moderno. O pós-modernismo pouco mais significa de que se desistiu de pensar e de procurar, e pouco mais… O resto são algumas afecções simpáticas, uns hibridismos, e pluralismo. Nada que nos salve nem que nos perca.

            Talvez isso explique que a situação actual, depois de ter sido desencontradamente definida como «pós-moderna» (Lyotard), «pós-industrial» (Bell), tardo-capitalista (Habermas), «neo-barroco» (Calabrese), «mediática» (McLuhan) ou  como estando no «fim da história» (Fukuyama), etc., etc., venha agora a falar-se de «Sociedade da Informação» ou  netropolis (Mark Taylor), telépolis (Javier Echeverría) ou tecnopolis (Neil Postman). A profusão das definições, apontando para um fenómeno já conhecido i.e., a vontade paradoxal de apreender a época a partir de grandes nomes (como o de «modernidade», «capitalismo» ou «progresso» e «civilização»), tem contornos nitidamente distintos. Mostra menos uma incapacidade das ciências sociais e acima de tudo das disciplinas, do que a dificuldade de estarem à altura de uma mutação que incompreendem. Diria mesmo que as categorias tradicionais, e talvez mesmo as modernas, poderão funcionar mesmo como um obstáculo para podermos intervir responsavelmente na situação. Isso deve-se sobretudo à incapacidade para perceber o novo papel da «técnica», que deixou de ser um simples instrumento racional, um «meio», para afectar crescentemente a própria constituição da experiência contemporânea. Praticamente não nenhum sector que não esteja a ser mobilizada, ou requisitada, tecnicamente. Público e privado, cultura elevada e cultura popular, real e simulacro, media e vida, etc.,  tendem a convergir sob o impacto deste acontecimento.

            As ciências da comunicação foram emergindo ao mesmo tempo que se desenvolveram os grandes media de massa. Isso ocorreu segundo linhas complexas que, nos primeiros tempos, faziam depender a abordagem comunicacional de outras disciplinas, como a sociologia, a psicologia, e a economia, entre outras.  Com a crise dos media de massa, já detectada por Toffler, e o surgimento de processos de singularização ligados às novas tecnologias (como o fax, o vídeo, e fundamentalmente o computador), e a sua progressiva disseminação por toda a experiência está a originar-se o processo inverso: boa parte das disciplinas do século XIX estão a seguir a lição comunicacional. O sucesso é tal que algumas até já se pretendem mestras…

 

O paradigma comunicacional foi ganhando em refinamento, quer através da sua ligação aos modelos cibernéticos (de auto-organização, fractais, etc.,), quer pelo desenvolvimento da sua matriz relacional. Como dissemos, a comunicação é basicamente a estrutura elementar que articula A e B, Rel. (A-B), sejam estes, objectos, sujeitos, imagens ou máquinas; que as articulam em todas as direcções: unívoca ou biunivocamente, pontualmente ou em rede. É importante ainda no seu desenvolvimento, a  maneira como a obra de McLuhan acabou por ser revitalizada pela cultura e comunicação contemporâneas. Pode dizer-se o «mcluhanismo», constitui hoje uma tradição central, que explica que autores tão diversos como Jean Baudrillard, Paul Virilio, Steven Shaviro, Friedrich Kittler, Slavoj Zizek, entre outros, compartilhem, apesar de todas as suas diferenças, de um esforço comum.

 

            Se a técnica está em movimento e nos mobiliza, não basta apesar disso um domínio simplesmente técnico. É preciso articular em espaços e estratégias diversas o conhecimento técnico, a experimentação e a elaboração conceptual. Inventar novas categorias, desenhar novas práticas, experimentar com os limites maquínicos e automáticos, eis a única forma de responder dignamente à complexidade do presente.

 

Todavia,, a matriz que enquadra este esforço em permanente desdobramento, tem de ser solidamente científica e cultural. É necessário um conhecimento das tendências e movimentos que fizeram de nós o que somos hoje e que nos deixam perto de algo que ainda mal conseguimos entrever. Mais ainda, é do conhecimento, criado ao longo dos últimos duzentos anos da «modernidade», que poderemos extrair alguma orientação para a investigação sobre as transformações actuais. Na verdade, o conjunto do saber sobre a «sociedade», de que dispomos, constitui uma codificação do mundo moderno, formando assim uma paradoxal «tradição da modernidade» (Berman) que podemos usar para a nossa interpretação do que nós próprios fizemos. Mas não nos devemos quedar por aí. A partir da detecção de alguns problemas cruciais da experiência tal como se constituiu modernamente temos de determinar uma orientação mínima que nos guie com alguma segurança nas mudanças que estão a ocorrer. Todos e cada um de nós estamos «imersos» no «crash-space», para usarmos uma fórmula de Ballard, onde o saber, a cultura e técnica, se confrontam, algumas vezes catastroficamente.

 

O que implica a interrogação da técnica que, se esteve desde sempre presente – que é a passagem do oral á escrita, e da escrita á tipografia, senão um salto técnico de enormes consequências? -, nos nossos dias ela é omnipresente. Sendo evidente a perda de instrumentalidade, enquanto dispositivo geral, que não impede que se usem máquinas particulares, muitas questões se colocam. Será que as tecnologias da informação podem ser lidas na continuidade das tecnologias ocidentais? Ou relevam já de uma outra lógica? Será que funcionam como uma espécie de conversor de todas as tecnologias (tecnologias energéticas, biotecnologias, tecnologias organizacionais, etc.)? Será que o «sector» das tecnologias da informação, claramente transnacional, tenderá a tornar-se absoluto ou poderá integrar-se, sem grandes problemas, na cultura humanista e literária que enformou a consciência moderna?

 

Na verdade a técnica e tecnologia estão em conflito quase irremediável e a confiança humanista na linguagem (e em geral na ética) está a ser demolida sob os nossos olhos. Se hoje temos uma linguagem universal esta parece confundir-se com a da tecnologia, que tende a funcionar como um transdutor, um tradutor generalizado, de toda a existência. Não há nada que não possa ser traduzido tecnicamente, que não possa ser convertido tecnologicamente. Tudo surge na sua mudez mais absoluta, imperando o estado-da-imagem sobre o da fala ou do Logos.

 

Nesta situação de uma «mudez» induzida tecnicamente ou pelos especialistas, ou de uma a babelização das imagens e sons que nos orbitam sem parança, temos a responsabilidade de defender a palavra certeira, de encontrar as categorias com que pensar a época. O resto virá por acréscimo.

 

 


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt