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three lions
                     


 

Breve reflexão acerca do especular (2003)

 

Dedicado a Eduardo Prado Coelho

 

 

"Desde el fondo lejano de la galería, el espejo nos espíaba. Descubrimos (en la alta noche el descubrimiento era inevitable) que los espejos tienen algo de monstruoso. Entonces Bioy Casares recordó que uno de los heresiarcas de Uqbar habia afirmado que los espejos y la cópula son abominables, porque multiplican el número de los hombres."

                                                Borges

 

Se fosse verdade que a existência é pura simulação de algo que já não existe, como pretende Baudrillard, então estaríamos presos de uma estrutura especular que serve de écran, ou de espelho, oara um «real» que vai sempre diferindo. Apresenta-o para melhro o afastar. A simulação parece ser, assim, um efeito do especulativo que vingou historicamente no século XIX. O que significa que se torna invisível, tal como a simulação perfeita não deixa quaquer vestígio que a revele. Não será inútil, creio eu, uma breve reflexão sobre os espelhos, de maneira  complicar a simulação perfeita. Comecemos com outra tautologia perfeita, de Francis Ponge: “Par le mot par commence ce texte/ Dont la première ligne dit la vérité,/Mais ce tain sous l'une et l'autre /Peut-il être toléré ?”. Todo o começo é tautológico e impossível, mas está sempre a ocorrer.  É pelo jogo com o vazio, neste caso entre linhas, que tudo continua em vez de repousar absolutamente sobre si mesmo. Entre as coisas, as imagens, os gestos, o vazio - esse «nada» que Fernando Pessoa representava como cercado pela linha de um bordado de uma menina distraída, é o que faz proseguir, sem deixar de inquietar. Inquietação de que Ponge nos faz sentir a sensação insuportável.  Depois dessa complicação inicial onde nada se passa, decorre muita coisa ou quase nada, tudo se enleando num jogo de espelhos. Ponge nesse mesmo poema  muda o dito popular que atribui 7 anos de  azar a quem quebra um espelho, invertendo esse ditado, ou reflectindo-o uma outra vez: “(A P R E S 7 ans de malheurs, /Elle brisa son miroir.)” 

Imaginemos que essa tal “ela” de que fala Ponge não é uma mulher, nem a literatura, mas sim a história. Imaginemos ainda que 2002 faz sentido enste contexto e façamos um salto arbitrário. Neste convite do Eduardo Prado Coelho o que nos interpela é uma instânciação do especular. Mesmo para mim que escrevo este pequeno texto é estranho, pois o especular e o especulativo ficou para trás, há muitos anos. A revolução estava para ser feita, entre várias coisas, para acabar com o especular e a especulação. Da especulação silenciemos agora, mas que dizer do especular, que parece estar de volta? 

Nestas reflexões quereríamos saber o que lhe sucedeu  ou onde se encontra arquivado. A coisa é ainda mais estranha porque saiu do arquivo inesperadamente, por simples uma sugestão numérica. Tudo ao contrário do que está prescrito por  uma teoria que teve muita influência, a de Hegel, para quem o especular é o fim de todoas as diferenças essenciais: do sujeito e do objecto, do senhor e do escravo, do finito e do infinito. A história, ela, teria assim terminado, em princípos do século XIX. Entre 1805 e 1808. Nessa questão vinha algo de esdencial, além da paródia que faz com que cada filósofo pretenda dividir a história em duas, tendo como gonzo o seu livro mais enigmático. No Ecce Homo Nietzsche dirá isso mesmo. Se calhar o mesmo sucede aos pequenos filósofos, quem sabe? Fora de paródias, com o  especular visava-se algo demasiado sério, ou seja, o momento crucial esse em que a humanidade se fundava sobre si própria,  finalmente reconciliada, fora de toda a divisão ou parcialidade. Desde que enunciado o especular é abolido, por se realizar sem falha. Depois dele só haverá jogo ou nada de significativo. Mas afinal há sempre mais uma linha por escever, que é sempre a última, ou melhor, é sempre a última antes da última, para referirmos uma fórmula de Kracauer. Assim, para Marx o especulativo era o momento anterior à sua realização prática pela Revolução, que haveria de realizá-lo praticamente. Também esta falhou, ao que parece. O que se seguiu foi a demosntração metafísica de que a revolução é a derradeira forma do especulativo. Decerto modo ainda não saímos da crítica do especular, mesmo sem o saber. Executado por Marx e Nietzsche e depois por Heidegger e Derrida, o que nele se visava ficou reduzido ao gesto de “quebrar o espelho”. Mas com que se fica quando o espelho é quebrado? Com o “real”,  ficando tudo reduzido ao espaço do actual, finalmente lberto da metafísica e absolutamente afirmativo?

Seria  agora o “fim da história”, já não especulativo mas democrático, à Fukkuiama. A isso parece responder um personagem de Lezama Lima no livro sintomaticamente intitulado Paradiso: “Compadre, no lo quisiera contar, pero mire usted que lo invisible se mostró ridículo aquella noche. Era un día sábado, muy apacible, que hasta el comienzo mismo de la noche mostró su circunspección. A veces lo invisible, que tiene una pesada gravitación, y en eso se diferencia de lo irreal, que tiende más bien a levitar, se muestra limitado, reiterado, con lamentable tendencia al lugar común”. Se o especular fosse o que dá a  ver ocultando-se, depois de Hegel lhe ter feito uma moldura de escrita, estão estaria pesadamente aí, em qualquer lado, em todo o lado. Experimentemos encontrá-lo auxiliando-nos de uma ideia de Roberto Calasso, segundo a qual o actual deveria  ser definido como pós-histórica: «El carácter teatral de la poshistoria, su estar vacía de cualquier sustancia y continuamente necesitada de absorberse en una fantasmagoría que aplaque su irreprimible necesidad de fetiches, explican el retorno a la escena abandonada de todas las imágenes del passado histórico». Então a consequência seria interessante: os fins que estavam prescritos à história e que a revolução deveria concretizar num acto último, numa última divisão que acabaria com todas as divisões, teriam ficado para trás de nós, que teríamos seguido em frente, vanguardisticamente, sem que eles tivessem podido acompanhar a sua passada. O efeito seria o de ficarem como la  folle do logis, mais uma louca que parte espelhos,  a perturbar-nos, a assombrar-mos, como fantasmas com que não sabemos lidar, mas que aparecem uma e outra vez, subitamente. O especular onde todos estes desejos se reflectiam e se realizavam instantaneamente, teria ficado assim para trás, fantasmaticamente, fazendo de qualquer valor ou finalidade uma mera paródia, mas mortalmente séria.

Mas não poderia suceder que o especular, que ficou atrás, nos continue a determinar, mesmo sob formas que já mal conseguimos reconhecer? O filósofo Mark Taylor reencontra-o no espectáculo. Diz Taylor: «The society of spectacle is the concrete  realization of speculative philosophy. While Hegel's whole  philosophical enterprise is dedicated to translating images into concepts, the society of spectacle is immersed in images in such a way that concepts always appear to be figurative. Nonetheless, Hegel's  speculative idealism anticipates the society of spectacle's idealism of  the image. According to Hegel, the concept is actually embodied in  space and time. In different terms, objectivity is actually conceptual  or the real is the idea. In the society of spectacle, the idea becomes  the image and the real is imaginary. For Hegel, it is concept all the  way down; for the society of spectacle, it is image all the way down»[1]. O espectáculo seria, assim, a forma actual do especulativo. Eis uma sobrevivência paradoxal. No mínimo o especular sobrevive numa palavra, que o contém. É certo que Debord  pouco ou nada, tem a dizer sobre a técnica, consistindo a sua posição numa inversão do positivismo, de  tal modo que o real é decifrado como espectáculo ou imagem. Como ele podería dizer, o real é espectáculo e o espectáculo é real. À primeira vista teríamos nesta fusão da imagem e do mundo a culiminação do especular. Mas porquê então a sensação de este resiste, que pesa ainda sobre o mundo? Tudo indica que é o especular que dá sentido a toda  a imagem geral, às grandes imagens teóricas, e às finalidades sublimes, de todas fazendo uma “imagem”  qualquer, uma entre outras.

Vilém Flusser coloca-se do outro lado onde está  Debord, na face escura do espelho. Diz ele: «Já não estamos interessados na face reflexiva do espelho. O nosso interesse está na outra face, naquela que está coberta pelo nitrato de prata. Estamos invertendo espelhos. Este é um dos característicos da actualidade: espelhos invertidos». Propõe, assim, que voltemos os espelhos, um pouco como o esquizofrénico que os volta para não se ver, ou o vampiro que foge do espelho, proque não se vê nele, revelando o seu segredo, que não existe. Mas mesmo voltado o espelho a outra face está lá, obsidiante. De pouco serve então voltá-lo. De facto, para que o espelho exista é preciso que o vidro seja obstaculizado, senão seria transparente, sem deixar de ser matéria pura e dura como o nitrato de prata das costas do espelho. Abolir o espelho passa por lhe retirar o nitrato de prata, ou no caso dos espelhos antigos, por embaciar a sua superfície polida, por uma máteria como o sopro. Se chegarmos demasiao perto de uma janela ou de um espelho a nossa respiração cria obstáculo ao ver. A vida como uma especie de nitrato de prata…

            Diz ainda Flusser «A massa cinzenta do nirtato de prata é totalmente opaca. Ao contemplá-lo não veja lá muita coisa. Para dizer a verdade: não vejo nada. Porque estou interessando nesse nada extremamente chato que vejo? Porque sei que ele é o responsável pelas reflexões que se dão na outra face. Não é para dar calafrios? Então as criaturas reflectem Deus por causa desse nada chato? O intelecto reflecte a natureza poruqe, no fundo, e nada?  A realidade histórica avança dialecticamente tendo isto aqui por fundamento?». É o nitrato de prata que produz esse nada que é o espelho, permitindo voltá-lo sem problemas de maior. Mas o espelho é um “quase-nada”, porque por uma astúcia maquínica a matéria divide-se contra si prórpia, produzindo uma série de novos seres, que a metafísica considera ontologicamente duvidosos. Essa profusão é inquietante, o nosso Vieira dizia que o espelho era um diabo mudo, e Flusser, no seu desprezo pelas imagens, gostaria de voltar à densidade da matéria, abolindo assim o espelhismo. Trata-se, para Flusser,  de trabalhar no lado de trás do espelho voltado: «A nova arte o prova. Correm todos os caminhos, creio, na região que se estende a partir da outra face do espelho. Isso nos distingue dos nossos antepassados. Estamos interessados na região atrás dio espelho. Connosco começa uma época nova. A dos espelhos virados». Tese interessante, mas que nos faz uma e outra vez reinventar o espelho e a divisão inicial.

Flusser perde-se na especulação de pensar que é possível trabalhar na matéira, esquecendo o espelho. Mas de facto não se passa nada em nenhum lado do espelho, mas na relação entre uma e outra face, no espaço que os liga, tensionalmente. Como nada se passa num lado ou outro do espelho, mas no espaço que os liga, na fina  linha divisória, a que  Duchamp chama infra-mince, infinitamente delgada, que une e separa ao mesmo tempo, a matéria e os simulacros. Aliás, a face espelhada é tão material como a do nitrato, e somente nesta divisão se operam maravilhamentos da matéria. Não dizia Mallarmé “qu’il faut arracher un simulacre au sol”? E que isso possa ter sido feito historicamente com máquinas tão elementares como espelhos não é absolutamente fantástico? Voltar o espelho permite, na minha opinião, reencontrar algo desse maravilhamento, mas apenas porque a outra face está lá, refectindo sem sentido aparente. O especular é justamente esta estrutura que quer fundir as duas faces, e que faz depender de tal fusão a realização da história e a salvação da vida.

Mas é essa vontade de fusão que o faz fracassar incessantemente. Na sua vontade de se realizar no mundo, o especular fica preso das máquinas ópticas que sempre sempre o agenciaram e, ao mesmo tempo, se fundam nele. Mark Taylor que já citámos, sustenta que “In the twentieth century, the Hegelian concept becomes real in  electronic telecommunications. The net wires the world for Hegelian GEIST”. Que o especular se esteja a realizar tecnicamente, eis a questão.  Nem pura matéria, que nos excluiria, nem puro reflexo, que nos absimaria, o especular é a tensão dos dois. A sua realização técnica implica um espelho que só tivesse uma face, a reflectora. Um espelho sem reverso, não é o que sucede com a fotografia ou o écran? Não viveremos hoje no fim desta estrutura da frente  e do verso do espelho?

A ser assim o especular determina-nos numa das suas formas mais insidiosas, que é preciso redividir. Um pouco como no mito da Medusa cujo olhar tudo estarrecia e reduzia a matéria, que é destruída pelo espelhado do escudo do herói. Mas nem isso, pois volta uma e outra vez na pintura, continuando a estarrecer-nos. Nesse estarrecimento ecoa algo do tensão do gesto inicial que cria o espelho e a sua história a partir da água onde se olhou um primeiro homem, Narciso, talvez.

 


 

[1] - Mark Taylor, Media Philosophy, (simcult 3).


 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt