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Freud, um sintoma (2006)
 

 

Mais do que de um «paradigma» Freud deveríamos falar da «nebulosa Freud». Algo vago e indefinido que permeia a linguagem vulgar, onde se fala de «complexos» e de «castração», etc., e que perpassa por toda a cultura. No cinema, com Hitchcock e os Cronenberg, ou na literatura com Pierre Jean Jouve, Mcgrath e muitos outros, que se apropriaram do «inconsciente» ou da «libido», falhando Freud e lesando a literatura e o cinema. De facto, a psicanálise foi-se afastando do seu fundador a pontos de, nos anos 60, Jacques Lacan ter feito sensação ao propor um retorno a Freud. Sobre o direito à herança digladiaram-se inúmeras escolas e «teóricos», as cisões vieram em catadupa, enquanto uns apagados «psicanalistas» faziam o seu trabalho de escutar quem nada ou pouco tinha para dizer. É certo que também de pouco servia a sua «escuta». Claro que no meio de tal nebulosa brilhava uma estrela maior, Freud. Apagado o escândalo inicial, e este foi grande dada a aparente magia e obscuridade das decifrações de Freud, o qual descia a cavernas mais hediondas que as da pré-história, precisa-se de um certo recuo, um passo atrás como aquele do pintor que espia a obra que vai fazendo, talvez um pouco surpreendido. De facto, não se trata de retornar a Freud, nem de purificar a psicanálise ou de refundá-la, servindo também de pouco refutá-la ou sobre ela ironizar, como aquele Karl Kraus que afirmava que «a psicanálise era única doença que se considerava como uma cura». Freud é antes de tudo um sintoma de uma mutação profunda da modernidade, num momento em que o prosaísmo da razão e o delírio romântico se tinham começado a fundir. Isso terá sucedido em finais do século XIX, quando o maquinismo industrial é submerso pelos automatismos de invenções como a fotografia, o gramofone ou o telégrafo. De repente, o espaço da vida ficou habitado por seres inquietantes - fantasmas, vampiros, autómatos, loucos mais ou menos furiosos -, assediando o sujeito racional moderno. As ligações racionais que os indivíduos estabeleciam entre si, consideradas voluntárias e livres, eram avassaladas por ligações perigosas, que um romance de Laclos nomeara em boa hora. O mais surpreendente é ter-se verificado que as novas máquinas eram capazes de usar o que havia de perturbante nessa generalização de um fascínio e reencantamento inesperados. Mais, ainda, que a economia cada vez estava dependente não das nossas intenções racionais, mas dos nossos desejos inconfessados e incompreendidos. É neste momento que surge Freud. Com ele culmina a estratégia racionalista da modernidade, mas sem ter medo do lado obscuro da razão, onde Goya descortinava os «pesadelos da razão». Na verdade, se os procedimentos jurídicos e a filosofia davam bem conta das decisões racionais, faltava um algoritmo capaz de apreender as ligações fascinantes, os desvios erráticos, as ilusões vitais. A teoria freudiana é sintoma e resposta a esta mutação da cultura, propondo novos conceitos para restabelecer o sujeito racional em novas bases, bem mais amplas que suportadas pela filosofia. As vantagens e dificuldades do freudismo em confronto com a alucinação quotidiana, esse misto de electricidade, dinheiro e substâncias aditivas, notam-se bem num texto esplêndido sobre a «estranheza inquietante” (Unheimlich). Nele Freud procura decifrar a fonte da inquietação ou o uso das perversões, clarificando a «caixa negra» da psique. A psicanálise que pretende ser uma ciência da decifração, procura iluminar a cripta onde estão sediados os «segredos» inconscientes, mais não faz do que continuar o trabalho milenar de acomodar desajeitadamente a cripta onde habita o pior inimigo de cada um: o próprio. Ao inconsciente os antigos preferiam, talvez, falar de «demoníaco». Seja como for, a redução psicanalítica falha radicalmente. E talvez não pudesse ser de outro modo. Mas o importante, aquilo que permanece do pensamento de Freud é a ousadia da sua tentativa, mais ainda, é o estilo novo com que aborda o «sucesso» e insucesso da razão, que nunca são aqueles  por  que esperamos.


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt