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Hip Hop, um combate de sucesso (2000)

O hip hop transformou-se numa cultura internacional, como o Festival Cosmopolis mais uma vez mostrou. É um bom exemplo de pós-modernismo, nomeadamente pela sua capacidade de recombinação, de hibridizar e misturar, que caracteriza boa parte da cultura contemporânea.

Neste sentido não está longe do destino da pop art que rapidamente se esgotou, por se ter adequado excessivamente à paisagem mediática. É certo que o que mais radical havia na pop era a sua crítica à grande arte, abalando as fronteiras entre a High and Low Culture, instabilizando todas as categorias estéticas. De certo modo a pop está na origem de um «espectáculo ininterrupto de delírio recombinante». O crítica marxista americano, Frederic Jameson, detecta aqui sinais de um «pastiche» sem a força satírica que a paródia da grande arte possibilitava, revelando algum desassossego com o «excesso» de hibridez, que caracteriza claramente a cultura hip hop contemporânea.

            No entanto,  as estratégias da pop e da hip hop são bem distintas, o que não impede que acabem por ter um destino comum. Enquanto a pop abala a cultura alta, esgotando-se nas escaramuças contra as fronteiras que a protegiam, mantendo-se apesar de tudo presa de uma visão puramente artística, o hip hop constitui desde o início uma experiência abrangente, em que os aspectos artísticos não eram os predominantes. É certo que o hip hop radicaliza alguns dos procedimentos da pop e da cultura mais refinada, mas por estratégia de combate, em boa medida inconsciente. Estas diferenças são evidentes nas difíceis e intrincadas relações de Wahrol e Basquiat, como o mostra um esplêndido filme de Julian Schnabel. O primeiro interrogava a vida da arte, enquanto que Basquiat se enredava nas artes da vida. Para o primeiro os media eram o seu espaço, para Basquiat era a própria cidade. 

De fato, o que tornou o hip hop algo radical foi a maneira com estendeu à cidade e aos corpos movimentos que a pop destinava à arte. É,  neste sentido, uma experiência, que se desdobra numa série de domínios.  A sua confusão com o Rap, que não se resolve acrescentando a breakdance, os graffiti,  o MCing ou o Djing, pois o que une tudo é menos a música que um ritmo que afecta o corpo, a cidade, e em geral toda a experiência. Depressa se descobre que um novo ritmo implica uma nova política. É certo que neste aspecto prossegue algo que já estava na beat, e as semelhanças do rap com algum Ginsberg são claras. Também nos hippies. Mas este era um movimento de jovens brancos americanos, numa dialéctica mortífera com a guerra, mas que se sentiam bem no «seu» espaço, na vida americana.

Nada isto sucedeu com o primeiro hip hop, que teve origem nos jovens negros das cidades americanas. Todd Boyd autor de Am I Black Enough for You : Popular Culture from the 'Hood and Beyond (1997) mostra que o hip hop é um movimento que ataca a maneira como os media, nomeadamente o cinema, constroem uma imagem dos negros, mostrando que, num movimento inverso, a cultura afro-americana acaba por redefinir a cultura americana. A razão  do hip hop prender-se-ia, assim, com o enorme crescimento da economia do entretenimento que possibilita minorias de todo o género. Para Boyd isso explica que seja o hip hop mais agressivo que domina, pois «o excesso vende melhor». Comércio e radicalismo, apenas. É, todavia, errado considerar que o hip hop é apenas o efeito do desespero dos jovens negros com a política Reagan, o que explicaria que figuras como Tupac Shakur, gangsta rapers, Spike Lee e outros cineastas revelem uma agressividade, que parece fundar-se num nihilismo americano muito peculiar.

Aliás, a criação da cultura hip hop, a sua internacionalização, revela a fragilidade de tais análises.

A hip hop generalizou-se e isso teve como efeito fazer dela uma forma de comércio e de política, mas demasiadamente ambígua. Longe vão os tempos em que as rádios tinham relutância em passar música Rap, forçando a usar uma estratégia de guerrilha de grupos de rua que passavam, dançavam e vendiam essa música. Esse tempo guerreiro da hip hop passou e hoje faz parte do mainstream americano, e não só, constituindo uma indústria que gera mais de um bilião de doláres anuais. No ano passado a Forbes Magazine referia que os rapers Master P. e Puff Daddy estavam na listas dos 40 entertainers, tendo ganho mais de 50 milhões de dólares, na indústria do disco e da moda.

De facto, um longo caminho foi percorrido desde que nos anos 70 vários elementos começaram a convergir para formar a hip hop, ligado à vida dos negros das grandes cidades americanas. A fúria do Rap com as suas líricas violentas, que insistem na pobreza, nas drogas, na violência ou no sexo,  não desapareceu, mas perdeu força. Isso é reconhecido com desencanto por Afrika Bambaataa, em 1966. Diz ele: « Nos dias de hoje uma série de pessoas que criaram o hip hop ... os Negros e os latinos ... já não o controlam».

 O destino da hip hop está marcado pelo seu sucesso, explicando-se pela tendência da cultura mediática americana de trazer para a cena da visualidade, para a paisagem mediática,  algo que ficava nas margens dela e que a recusava. Uma forma de vida.  Ora, o que conferia radicalidade a este movimento era a maneira como resistia a uma cultura que se virtualziou crescentemente e se volatiza nos interfaces de computadores e dos jogos digitais.

É certo que contínua a ter um aspecto radical, mas essa radicalidade está ameaçada pelo espectáculo, pelo dinheiro e pela própria política. As tentativas de criar um movimento político hip hop que associa jornalistas, grandes empresários do Rap e artistas hip hop são um outro sinal disso. O poder político hip hop, que em Bullsworth Warren Beaty repugnantemente utiliza, são o melhor sinal disso. Os motivos são justos, a tentativa de usar politicamente os métodos que deram resultado com a Nike e a Tommy Hilfiger parece assegurar resultados, ainda por cima quando se joga em torno da discriminalização dos pobres urbanos, na crítica ao sistema educativo, de criação de emprego, etc.

Mas os seus aspectos radicais, nomeadamente a maneira como se apropriava da cultura dominante, como recorria ao plágio pondo em causa a noção de propriedade, como politizava o espaço urbano pelos graffiti, como fazia descer ao comum uma nova poesia através do Rap, dando razão ao verso de Lautréamont que diz que «a poesia é para todos» -, tudo isso está em risco.


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt