e n s a i o s
three lions
                     


 

O irreparável (sobre Madadayo de Kurosawa) (1997)
 

          Uma sensação de estar defronte do irreparável assaltou-me enquanto via o Madadayo, «Ainda não», o último filme de Kurosawa. Sensação estranha, que ás vezes me sobrevoa, para logo desaparecer, porque o irreparável não se dá em nenhum objecto, nem em nenhuma situação. É a tonalidade que afecta uma vida singular. Uma vida é irraparável, não negociável nem contratável. Lição amargamente aprendida em velho, quando o herói perde o gato, sofrendo durante meses e meses, pondo tudo a mover-se em redor dessa perda, para depois ser substituído por um gato-qualquer. Tudo é substituível menos o irreparável. É essa sensação que pesa sobre todo o filme, lição que aprisiona os discípulos. Na verdade, não se conseguem livrar do velho, a quem durante 17 anos perguntam: «está pronto?», sempre para ouvirem a eterna resposta: «Ainda não». Diante do irreparável nenhum gesto pode alterar as coisas, repará-las.  No caso do discípulo que tinha cortado a barba, criticado parodicamente pelo professor, que a barba não lhe pertencia apenas a ele, nem fundamentalemnte a ele: mas aos que o reconhecim com barba. Ele era com a barba. Incapaz de compreender isso, responde que iria deixar crescer a barba novamente. Ao que responde o mestre que depois ficaria irreconhecível outra vez, pois o deixar crescer a barba na cara nua também não lhe pertence apenas a ele. No fundo o irreparável tinha caído naquele gesto, deixando desemparado quem o fez. A única hipótese está no esquecimento. Em continuar. Esquecer o gesto marcado pelo que é irreparável, e seguir. Kurosawa dá aqui uma lição magnífica. Se «ainda não» se está «pronto» é por que «nunca» chega a altura das coisas acabaram, da vida se mumificar.

É possível seguir sempre, mas não por vontade sobrevivência, que em si mesma não tem sentido. As razões disso são duas. Por alguns estarem desde sempre marcados pelo incómodo de chegarem ao estado em que se está «pronto»: assim, no sonho da morte o mestre rememora o jogo da escondidas de infância. Aí, neste lugar onde todos têmd e afrontar o irreparável opu fugir dele, a criança  depois de procurar uma e outra vez o lugar perfeito para se esconder,  depois de o encontar volta ao ar livre, debaixo do céu, respodendo que ainda não está pronto. Podemos imaginar que os pequenos companheiros deixaram de jogar o jogo do ficar pronto com quem não o sabia jogar. Não por sabedoria, posi era uma criança, mas porque lhe calhou a alee não conseguir estar pronto. A segunda razão, tem a ver com o que impede de ficar ronto de uma vez para todas, para uma profissão ou para a morte. É o «deus das colheitas» de Kurosawa que salva no mmento de maoir solidão e pobreza. Esse deus são os amigos que lutam contra o irremediável com o amor.

Que paciência a dos amigos! Aceitar quem nunca pode deixar de ser criança, que traz uma criança medrosa e nunca pronta dentro de si. Suprema autoridade do amor, que não se prepara nem se conquista. Aceitar e proteger essa criança que se esconde no mestre já velho, mas sem estar aí á vontade. Como o mestre a sabe cuidar tão bem, dormindo desde sempre com luz acesa para não a espantar, para não a deixar pronta a desaparecer, que se esconde debaixo de um cobertor durante a tempestade, não para se proteger, mas para confortar aquela criança que traz dentro dele! A luz eléctrica, artificial é necessária porque a luz da sabedoria não chega  Como o «ainda não» de Kurosawa se distingue do «nevermore» de Poe, onde tudo se perde instantaneamente não pro se ter salvo, mas porque o irreparável o destrópi. Ou de Baudelaire, a quem «L'Irréparable ronge avec sa dent maudite». Mas este ainda encontra salvação no vinho, na embriaguez,  mas bebe-o sozinho, enquanto que o  mestre de Kusosawa bebe-o com os amigos. Que uma e outra vez desobedecem ao letreiro que diz «proibidas as visitas». Mas, acima de tudo, como se separa da utopia do «ainda não» de Bloch, que está sempre e apenas pronto para o futuro, irremediável certeza para que se está sempre pronto, mas que deixa escapar por entre os dedos a infimidade que é o existir. Tudo é simples por ser irremediável. (14.6.1997)


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt