e n s a i o s
three lions
                     


 

Obliquidades (1997)

               Numa época com poucos homens e demasiada gente, sempre procurei aqueles a quem amar. De longe apenas, pois as desilusões pagam-se funestamente,  também porque não tenho a certeza que eu seja um desses homens que procuro. Talvez acima de tudo porque «amar» se tornou numa palavra obscena, «moeda vulgar» como disse Mallarmé, que a telenovela gastou. Jorge Silva Melo é desses que observo de há muito e de longe, adivinhando proximidades, como se em algum sítio estranho se cruzassem caminhos do pensar que não do viver. Sítio estranho já que é um cruzar que não se toca, que não tem pontos de coincidência. Faz algum tempo, não tanto assim, ao ler uma crónica de Silva Melo descobri um interesse comum pelo clinamen, pela obliquidade, pelo dizer indirecto. Usava outras palavras que não as minhas, mas senti que algo de decisivo passava pela delicadeza do  oblíquo, que deixa no plano da sua pendência  cair as cosias e as palavras à sua velocidade e peso específico, em busca do seu lugar «natural».

Assim atraído fui assistir à peça Prometeu Agrilhoado/Libertado, a última de Silva Melo. Como já suspeitava, dei-me conta de que há obliquidade e obliquidade, que também aqui o tempo fez estragos. O Prometeu de Ésquilo mais do que declinado é reclinado brutalmente na mesa anatómica de um pensamento que está preso da hybris em tudo semelhante à de Prometeu, mas  sem ter nada da sua divindade. Humano, demasiado humano, Silva Melo está obcecado com o destino do «homem», com a SIC e os espanhóis, com a banalidade do espectáculo, e os hipermercados, tudo más palavras, a que opõe as boas: «rosa-luxemburgo-etc- camponês-republicano-etc-otelo-etc».  Tudo palavras, do que não viria mal, não for a estarem presas de um pathos que me desagrada. Escrevo para restituir esse desagrado. Que parece dever-se a uma certa mitificação do teatro, operada por uma má declinação da tragédia. É certo que se nota o desassossego de quem quer aceitar a errência rimbaudiana dos jovens que querem prazer, mulher ou nada, e até mesmo uma certa desconfiança relativa ao teatro. Momento precário, que me interessou, mas que rapidamente se desvaneceu. Em Silva Melo o teatro é a máquina que deve operar a passagem da arte para a vida. Só tal passagem é «política». O clinamen de Silva Melo inclina-o para «misturar» Prometeu com as misérias do presente, sendo um ponto forte a fala da africana e dos africanos mortos à beira do novo «muro de Schengen».  Essa mistura que caracteriza a obliquidade é destruída pela falta de ntidez, caindo tudo no melting pot da «Revolução» em que manifestamente já não se acredita. Daí que, como diz no catálogo, seja o teatro «talvez o que nos ficou depois do comunismo». A certo momento da peça a desconfiança pelo teatro emerge para logo se esbater: é oferecido como espaço para expor as mortes da nova ponte, para fazer uma colecta para o enterro. Isso, num teatro do Estado! Um pouco obsceno quando essas palavras são música para os senhores que hoje governam. Que vivem delas, do seu esvaziamento. O comunismo republicaniza-se, tal como o teatro se… torna o mito da Realpolitik. Brian Eno afirmou algures que era preciso meter África nos computadores. É aquilo que aqui falta. Incluída na memória do futuro, amalgada, África fica à porta de Schengen, mas também se esmaga nos muros do teatro. Como uma «demonstração» da inviabilidade da «libertação» ou da catástrofe da história. A leitura da frase de Marx, num momento crucial da peça,  que a luta de classes acaba com a vitória da humanidade ou a destruição total,  faz de todo o acto singular um «exemplo» ou um «símbolo» libertando a paixão de viver da sua liberdade.

Resultado que se expressa na «libertação»  de Prometeu, que é o verdadeiro objectivo da peça. A moralidade dialéctica está na passagem do Prometeu agrilhoado para o Prometeu libertado. Por um feliz acaso não nos chegou até nós a peça em que Ésquilo o libertava.  Mas quer-se libertá-lo de quê? Da águia que lhe come o fígado, do rochedo a que está agrilhoado? Indecisão entre libertação e liberdade, que me revelou os limites do clinamen de Silva Melo. Este é simples apropriação, um pouco semelhante àquela que domina nas artes actuais, chamadas pós-modernas, em que tudo se joga em torno da apropriação de que um bom exemplo são as fotografias de Cindy Sherman. Apropriação que detesto, pois chega de proprietários, mesmo da revolução ou da humanidade ou da liberdade. A libertação de Prometeu, operada pelo teatro de Silva Melo, faz dele um homem, e assim destrói aquilo que tem de mais essencial: a sua «divindade». É essa natureza divina que o faz cair na Hybris, no excesso, aceitar o sofrimento, jogar com o Destino.  Porque se trata de jogo, quase uma paródia. O sofrimento é a morte e até ela tudo é sinal de vida. Ora Prometeu é imortal. Sendo Deus e portanto imortal, Prometeu sabe-o: «Já sei antecipadamente e com exactidão tudo o que vai acontecer. Nem virá sobre mim nenhum sofrimento imprevisto» (10-103). Também Zeus sabe que a libertação é inevitável. Ele não se queixa do sofrimento, o que lhe desagrada é estar exposto, de «maneira infamante e cruel», sofrer como um homem quando é um Deus, ser tratado como um homem por outro Deus. Obliquidades. Porque é que Prometeu tem de passar por esta provação finalmente inútil pois sabe com «exactidão» que irá terminar com ele libertado? Conhece o tempo que demora, quem o salvará e porque meios. Talvez porque abomina a «tirania» (226) e a «servidão» (966), e acima de tudo, um Deus que se quer afirmar como único, que não reconhece outros deuses e mais antigos. A gigantomachia que venceu os Titãs prossegue agora como teomaquia. Que nós sabemos bem inútil. Nós, no final da história, temos o segredo do desfecho dessa luta. Sabemos que ambos serão derrotados. O último Deus a chegar ao Panteão, destruiu todos os outros, pouco ficando da saga dos Deuses, algo da memória do paganismo de Prometeu que ainda emerge em Pessoa.

Só superficialmente se trata de um jogo inútil, ou mesmo de um «jogo». Se o sofrimento é inútil dado o fim conhecido, é porque o importante é o «meio», a «maneira» como se vai ao fim. Zeus finge castigá-lo, e Prometeu finge sofrer, mas o principal é a obliquidade do movimento, as figuras que assume. A eternidade, a imortalidade de Prometeu,  pode aceitar qualquer má figura, o ser agrilhoado de «maneira infame», desde que a exibição da infâmia  destrua a própria infâmia. Só um Deus pode levar a este ponto a exibição,  feita de carne e não de «ideias». O fígado era comido, mas perante a imortalidade isso era «fingimento» . Não por acaso o poeta põe o fígado sempre a ser comido e a renascer de novo, o que faz da pobre águia um animal bem patético. Também a «tirania» que se exerce sem chegar a «tocar» verdadeiramente no corpo de Prometeu tende a anular-se, a tornar-se uma paródia de «poder».  Tudo se joga no tempo de uma figura, e cada figura é eterna, obliquando através de si todo o poder. Assim Prometeu diz que «odeio todos os deuses». Não é radical? Dir-me-ão que a frase completa, e bem diferente,  é: «odeio todos os deuses que eu pus na situação que se encontram e que injustamente me maltratam» (975-976). Mas não foi dito o inaudito? Um pouco como o martírio medieval era estragado pelo que blasfemava na fogueira, sendo insuficiente para apagar o inaudito do intervalo blasfemo toda a cerimónia teológico-política que o rodeava.

De modo aparentemente semelhante, Silva Melo já sabe o final da história, a da libertação da humanidade», não se dando conta de que esta é mais um «Deus», e o pior deles todos, caso não saiba jogar o jogo da efemeridade e da eternidade. Se os homens, os «efémeros» não podiam salvar Prometeu, podiam dar eternidade à sua efemeridade, tal como Prometeu soube dar efemeridade á sua eternidade. É isso que o torna fascinante e «divino». Mas não se trata da eternidade das «ideias», da Justiça, da Liberdade, essas palavras capitais. Trata-se de agir contra a injustiça, a tirania, e não de ser habitado pelo fantasma das grandes Palavras. Se os homens são «sombras de um sonho» pensado á grega, Prometeu com o seu jogo veio não acordar do sonho, mas dividir as sombras. Se como se diz: «a infelicidade pairando sobre todos, ora pousa num, ora noutro» (276-277), é preciso que outras sombras pairem, que nenhum «fogo» ou «luz» elimina, mas que cai sobre as coisas, as matérias e os corpos. Eliminar a sombra eis a ilusão da razão. Melo que vê no teatro a «vivência concreta da Cidadania», com letra capital, faz do teatro o domicílio do mundo, distribuidor de luz ao domicílio. Há, disse-o já, uma pequena sombra que leva Silva Melo a desconfiar do teatro, que logo anula sem conseguir. Como Prometeu foi e contínua a ser infindavelmente declinável, porque existe sofrimento. Mas ninguém pode viver o sofrimento de outrém, muito menos nos teatros do estado. Cada um tem de transfigurá-lo em força alegre, um pouco como o Prometeu de André Gide, que acaba por dar um banquete onde é servida assada a águia que o atormentou.  (31.5.97)


 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt