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three lions
                     


 

O papel político da tradução em Muntadas (1996)
 

Na Quinta Ciberconference de Madrid, Muntadas, por video conferência, abalou a boa e bela cyberconsciência, apresentando uma performance sobre a TRADUÇÃO. As boas consciências tudo fizeram para não entender. Mas a coisa tinha que se dissesse. Eis umas breves reflexões.

1. o problema da tradução é essencial quando se tende a impôr a uma língua única, que é a linguagem digital e a sua repetição paródica, o inglês. De tal modo que li no ZKP2 que um *inovador* propôs uma *numberlanguage*, que poderia retraduzir todas as línguas para … basic english. Ora, Muntadas foi ao ponto decisivo: como é possível criar um espaço-em-comum, que só por ironia seria o cyberspace, ainda por cima afirmativo, quando todas as línguas têm de desparecer para nele participarem? Por mim senti na pele facto de estar desapossado do português.

2. As teses estilo Barlow e anti-Barlow caiem todas imediatamente, pelo simples enunciar da questão. Sem respeitarem a diferença da lingua., sem uma outra política da língua, toda a discussão sobre os nettizens é um logro, um subterfúgio para continuar o mesmo de sempre, sem nunca o chegar a pôr em causa. Colocar um mundo virtual por cima de um mundo real é uma operação que exige um ocultamento das diferenças, é uma maneira de legitimar tudo o que está e o escapismo ao que está. Impossível evasão, que Muntadas denuncia, quando mostra as imagens da casa de Mitchell, incendiada por representar o racismo. Ora este incêndio é necesssário, e o seu calor deve estender-se à rede e à cyberculture sob pena de estarmos a criar aí um *pesadelo climatizado* (H. Miller).

3. Interessou.me a subtil ironia que estava subjacente à maneira como Muntadas paradiou as conferências via satélite. A pudenda quaestio do dinheiro ressalta imediatamente, sem precisar de denúnica. Falar de dinheiro nesse tipo de conferências já tem efeitos disruptivos. Mais ainda na 5 cyberconf onde todos olhavam pudicamente para o outro lado, onde nada se passa. Talvez com a excepção de Manuel de Landa, embora este pareça querer ensinar os capitalistas a usar as redes, que decerto o podem dispensar muito bem. A ironia de Muntadas estava bem presente na maneira como usou a tradução simultanea. Era evidente que o espanhol que utilizava não era traduzível, pois era uma mescla das línguas excluídas do colóquio, como o alemão e o português. Resultado: todos se agarravam aos auscultadores, mas tinham uma tradução cheia de brancos, formados pelo alemão e o portugês, mas também pelas imagens. Ao branqueamento das línguas ele contrapos uma exposição do branco. Que ninguém tenha ficado escandalizado, que os silly cybercow-boys tenham entrado em risada só demonstra que era bem precisa a sua intervenção.

4. Na verdade não era uma conferência o que Muntadas pretendia, mas uma provocação. E conseguiu-o perfeitamente. Pelo menos no que a mim se refere. Achei que foi uma lição poética da política da língua, o que exige sempre uma crítica da comunicação. Pareceu-me importante o facto de se ter recusado a ouvir a *nossa* resposta, que tenha impedido a discussão no interior da nossa sala, prescrição que poderíamos e deveríamos ter desobedecido e não fizemos. Ele já contava com a nossa obediência, dada a subserviência dos participantes da 5 Cyberconf à *grande arte*. Desobedecer seria atacar a arte. E isso era bem necessário. Acima de tudo naquele lugar. Mas mesmo que o tivessemos feito, Muntadas teria sempre ganho a jogada: com o desprezo que manifestou sobre a eventual discussão das suas teses, em si mesmas banais sobre a tradução e a língua-única, deixou claro o seguinte: de nada serve discutir assuntos deste género, desta gravidade. Ao fazê-lo, todos pudicamente se demonstrariam de acordo, uma pequena minoria estaria em desacordo, outros proporiam soluções teóricas ou estéticas, mas tudo ficava na mesma. Mais ainda, a discussão seria feita no mesmo quadro, do inglês dominante e do espanhol envergonhado, tudo o resto sendo excluído. Dizia Lampedusa que era precisa mudar algo para tudo ficar como está. Muntadas diz o contrário: Quando se mostra o que está, tudo muda imperceptivelmente. (Madrid, 6.6.96)


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt