e n s a i o s
three lions
                     


 

Algumas reflexões políticas (2004)
 

A energia da multidão nunca se libertou em forma politica. A razão essencial é que a multidão é informal e informe. Enquanto multidão, a sua energia é drenada para construir as pirâmides em que se perde a história, canalizada para a deslocar no espaço, usando-a para inundar outros poderes da maré da fora bruta; mobilizando-a para todos os fins, primeiro a guerra, depois a demografia, finalmente o consumo. Somente quando a multidão é fragmentada começa a política, que exige sempre desalinhamentos outros que os alinhamentos existentes.

Para o amor, para a afecção não se pode contar com a multidão, mas com as memórias que as artes restituem. Existem histórias de resistência, de amor, de traição, etc., Cada história, enquanto imagem,  espera por aqueles que se deixarão prender pela sua potência. Que não podem resistir Vénus? Então o amor impera. Marte? Então a guerra; Josefo Flávio? Então a traição. É-se traidor quando se entra em histórias de traição. Ama-se quando se tem imagens do amor e se é possuído por elas. Maria olhando o seu filho.  Isolda suspirando. Então é-se Isolda, ou Maria, etc., sem o saber. Nada existe de humano que não sejam as imagens que se decantaram historicamente.

A energia livre vem do prazer, e é este que desde sempre moderado para poder ser trabalhável. Canalizável. É verdade que surgem relâmpagos na massa. Mas é quando ela explode. Lembro-me dos momentos da revolução de 74 em que cada um explodia de desejo, lado a lado, mas não juntos. Como os chefes não toleravam a pequena distância que afasta imperceptivelmente da multidão. Sempre que via as manifestações a passar olhava para dentro, à procura daqueles que estavam ali provisoriamente. Nada dar que não seja provisoriamente.

Reunir o disperso, desde que programado, é sempre antitético da liberdade. Sucedem reuniões, e também desuniões. Lúcidas ou inconscientes, ou melhor lucidamente inconscientes.   Sem pensar demasiado nem em conjunto, pequenas divisões vão ocorrendo, sobre tudo e em todo o lado. Marx errou ao propor uma linha divisória única, estável e definitiva que se trataria de superar. De um lado ou de outro, para sempre. Na realidade tudo o que se agrega ocorre provisoriamente, através de clivagens instáveis, e efémeras. Gostar de Richter ou de Longo, eis uma divisão; de Cage ou de Hindemith, eis outra; de vinho ou de cerveja, eis outra. Todos estas divisões vão percorrendo uma linha invisível, em torna da qual se guerreia. Quem pode dizer onde traçar a linha? Quem pode apresentar a imagem fracturada de ponde emerge esta divisão? A multidão ou a arte? A multidão é desenhada pela linha divisória que está em acto e que nela passa.

 Batty sofria pelas lágrimas vertidas na chuva. Porque partia de uma valorização da diferença? Sim, mas de uma diferença visível. Os outros tinham que ver a diferença. A vontade de dar a ver leva à perda da espontaneidade da acção. A rosa é sem porquê, dizia Eckart. A rosa não precisa de espectadores, diz Pessoa. É na materialidade absoluta daquilo que é, que se altera a mobilização da energia. Trata-se de uma explosão de energia da rosa negra, que se volta para si impedindo o uso e o abuso dos que querem ver.  Não uma lágrima vertida na chuva, mas a chuva como lágrimas vertidas no mundo. Não porque se falha o seu destino, mas por ter falhado  as promessas de uma outra memória que não a dos arquivos, dos media, dos livros, etc.

Arcaicamente a carne poderia ter sido alegre, mas foi triste. Trocou-se tudo para evitar a predação. Os corpos a tremer atrás das árvores primitivas  são aqueles que são usados e drenados de energia. Não é aceitável nenhuma política que não recuse o medo pré-histórico e que não queira a alegria total aqui e agora. Ora, não há alegria da multidão, são apenas alegres aqueles que concentram a sua potência para a gastarem em pura perda. Eis o que se dá aos outros. Um excesso de consumo de si, em livros, em ideias, em filhos, em quadros, em futebol.

Como distinguir entre filhos e comunidade perfeita? Entre cerveja e teoria? Não há forma de fazê-lo, que não seja violenta, mobilizadora, etc.  Como dizia Blanchot criam-se comunidades de amantes pela maneira ama e por aquilo que amam. Num momento, agora por exemplo, estamos do mesmo lado, noutros não. Mas quando há um amor forte: a justiça à Kleist, essa comunidade em alguma estabilidade. Produz actos e obras que servem de imagens para outros. Eles sempre virão, ou não.

Ser de esquerda ou de direito é compartilhar a mesma divisão que nos levou à miséria em que se vive. Tal divisão já não basta. Não digo que não possamos, sem acreditar nisso, dissentindo secretamente, estar ao lado um partido ou instituição, mas apenas enquanto serve para redividir a divisão que eles propõem.

Tudo isto implica uma «irresponsabilidade» total. Não carregar o mundo às costas, não falar em nome de ninguém, evitar falar do todo, do «real».   Deixar culpabilidades, destinos e planos, para assumir toda a história, a que fracassou e a que venceu, incorporando-a em si. Ecce homo, eis a fatalidade que divide a história em dois. À responsabilidade do Estado opor a soberania absurda de cada um. Conferir dureza ao que se é. É tal dureza que incomoda as volubilidades do tempo, os nomadismos internéticos,  as seduções teóricas.  De que serve termo-nos preparado, disciplinado, isolado, se não for para deixar vir uma dureza que não cede, que faz de cada um algo intratável? Uns secretamente, outros às claras.  

Hegel viu o destino do mundo quando Napoleão lhe passou à frente a cavalo. Mas não viu o cavalo, esse «escravo» que sobreviveu à dialéctica do senhor e do servo, tal como hoje está a ocorrer com as máquinas. Deveríamos estar mais próximos dos cavalos e das máquinas, que são hoje os nossos aliados contra a «responsabilidade» que herdámos sem sermos herdeiros de nada.

 


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt