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three lions
                     


 

O valor do arcaico (sobre Wenders) (1997)
 

Em Lisbon Story (1994), com os Madredeus, Wim Wenders tortura-se com o que há de inevitável num filme sobre a cidade ou sobre outra coisa qualquer. A suspeita de ornamentalismo, de um domínio da estética-bilhete-postal, parecem incomodá-lo. Procura salvar a coisa, apaziguando escrúpulos que só o honram, com a enésima reflexão sobre a «imagem». Sabe-se que todos os cineastas interrogam a imagem, com os poetas a linguagem, e os talhantes a anatomia, por dever profissional. Como se a simples presença dessas reflexões pudessem distinguir o Realizador dos inumeráveis e pululantes realizadores. Preparando essa distinção, no filme Friedrich, o realizador, desaparece desanimado com a sorte das imagens. Vagueando longe das coisas, pois onde está a imagem não está a coisa, as coisas desaparecem quando surgem as imagens fabricadas pelo cinema. As coisas desaparecem e, mais grave, as imagans perdem a sua inocência, pelo simples facto de estarem irremediavelmente ligadas ao «cordão umbiliial de ouro» com que se fabrica o cinema. Bastaria esse reconhecimento para alguns, mas Wenders quer justificar absolutamente a imagem. Bem longe está do «juste une image» de Godard. Quer pelo menos justificar as «suas» imagens, aquelas que arbitrariamente endadeou, aprisionou pela máquina demoníaca que é a câmara. A solução é radicalmente adiantada por Friedrich. Para reencontrarem a sua inocência perdida é imperativo: 1) nunca serem vistas, nem quando tiradas, nem depois de tiradas. Daí que as tirasse de costas, por um sistema de video curioso, completamente contingente e aleatório. Essa solução libertava-as pelo menos do «realizador», mas isso não basta a Wenders. Como aceitar imagens que nunca fossem vistas, arquivadas no interior das próprias coisas? Não é essa a única ligação perfeita com as coisas, que aparentemenet deseja como justificação do «cinema»? Outra haverá, que não chega a ser pensada: a de que a imagem é uma coisa em si mesma, que a sua matéria fotónica ou electrónica nada deve à matéria que não foi trabalhada pela técnica. Há nestas perguntas algo de verdadeiro, de que Wenders não se dá conta pois a distinção referida atrás exige que o realizador se deixa convencer pelo sonoplasta, Winter, que a velha máquina do cinema pode salvar as imagens. O artesanato da imagem seria então melhor que a imagem digital, e por aí fora. Ou seja, a máquina velha é melhor que a máquina nova. Triste condição a da imagem ficar à espera do envelhecimento da máquina. Está assim consumada a transformação do realizador em Realizador. Com um pequeno senão… Se a máquina tem de ser velha, também a experiência envelhecida dá melhor imagem que a experiência actual. Lisboa serve a matar para a estratégia de Wenders, só que a Lisboa velha que «realiza» é apenas o passado da Alemanha nova que o preocupa. (17.1.1997)


 
 
 

 
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   JBM, 2003                                                                                                                  e-mail: jbmiranda@netcabo.pt